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quarta-feira, 18 de março de 2015

Uma Breve homenagem ao Movimento RASH

Em 1958, na Jamaica, artistas começam a misturar a música negra americana com os estilos tradicionais da ilha. Essa mistura de ritmos foi evoluindo até se converter no que se denominou SKA. Esse ritmo tinha duas características principais: a forma energética como era dançada e os RUDE BOYS , que não eram bem aceitos perante a sociedade por suas ligações com o mundo marginal, pelas confrontações com a polícia, e pelo consumo excessivo de maconha. O rude boy pode ser considerado o primitivo skinhead pelo seu modo requintado de vestir-se, imitando seus ídolos de filmes de gangster.

Em 1962 a Jamaica consegue independência da Grã-Bretanha à que se segue uma etapa de festa na qual se desenvolve o ROCKSTEADY e posteriormente o REGGAE. Também durante esse período, muitos jovens jamaicanos emigraram para a Grã-Bretanha e com eles a sua música. Estes rude boys juntaram-se aos MODS, que eram jovens amantes da música negra. Esses últimos iriam sofrer a era do hippismo que percorreu a classe média no final da década de 60. Dessa forma os mods desapareceram como movimento juvenil massivo na década de 70, porém os mais fiéis seguidores da música negra e principalmente os que pertenciam a famílias de classe operária rejeitaram essa onda, e passaram a serem denominados HARD MODS.

Rude boys e hard mods misturavam-se nas ruas, pubs e festas e como fusão de ambas as culturas surgiram os SKINHEADS. Devido ao sucesso da Inglaterra no mundial de futebol de 1966, muitos jovens começaram a ir aos estádios. Logo nasceram as torcidas e explodiu a violência entre elas. Nas bancadas viam-se cabeças raspadas brancas e negras juntas, pois os skinheads participaram do nascimento dos HOOLIGANS.

Na parte musical, o SKINHEAD REGGAE, como é conhecido o reggae original muito ligado aos skinheads, começa a tocar com força nas paradas inglesas. Porém, por volta de 1971, o reggae segue caminhos que não interessa muito aos skinheads, que então concentram-se no ska.

O movimento skinhead que tomara força (devido em parte à sua oposição aos hippies, que consideravam filhinhos de papai da classe média e afastados da realidade social) foi enfraquecendo junto ao ska e outras músicas jamaicanas. Em meados dos anos 70 o movimento apenas se encontrava em âmbitos reduzidos. Nessa época, enquanto o desemprego e a desesperança cresciam, surgia um novo estilo de música, o PUNK ROCK, que infectou as ruas e criou um estilo de vida próprio, nasceram os PUNKS. Os skinheads logo se interessaram por este novo estilo musical e fizeram-se os mais fiéis seguidores junto dos punks. Os skins mudaram o seu visual fazendo-o mais rebelde e provocativo (nascem os BOOTBOYS) afastando-se das suas origens jamaicanas. Pode-se dizer que houve dois tipos de skins, os do "spirit of 69" e os da era punk.

O Punk logo perdeu aquele espírito de rebelião que teve ao nascer. Porém, em 77 apareceu uma nova geração de grupos como SHAM 69, ANGELIC UPSTARTS, BLITZ, CRASS, INFA RIOT, etc. O então jornalista de "Sounds" Garry Bushell foi praticamente o único a escrever sobre esta música, conhecida nas ruas como street punk ou reality punk, e denominou-a OI! inspirado no tema Oi! Oi! Oi! do COCKNEY REJECTS. Pela primeira vez dava-se oportunidade aos skins para fazerem sua própria música.

A tentativa dos punks e também dos skins de provocarem à sociedade levou a erros como o de "enfeitarem-se" com símbolos nazistas, embora fosse somente para provocar ou ser o mais "mau". Os partidos fascistas ingleses como o BNP ou National Front aproveitando este exibicionismo punk e skin, e espalhando confusas mensagens nacional-socialistas para os operários, conseguem desligar grande parte de skins e punks (esses últimos em menor medida) e assimilá-los na ultradireita. Aliás, estes partidos eram os únicos a ver os skinheads como indivíduos com valor e pareciam dar-lhes um futuro, pois a sociedade via os skinheads como corja de classe operária sem valor e que só causavam danos à sociedade. A National Front consegue que as suas juventudes fascistas se vejam refletidas na estética skin (cabelo curto, botas,...) e acabam adotando-a em 1980-1981 (também havia nazi-punks, mas foram em menor número, pois a sua imagem não ficava bem com as suas idéias). Tudo isso foi apoiado pelos meios de comunicação que se importavam mais com o sensacionalismo do que com a veracidade das notícias.

Muitos skins opuseram-se a isto, tendo idéias opostas aos nazistas, nascendo assim os REDSKINS. Ao passar do tempo, eram mais os nazistas a se disfarçarem de skins, em boa parte devido aos meios de comunicação que espalharam esta falsa imagem dos skins por todo o mundo. Havia uma pequena cena rock nazista capitaneada por Skrewdriver. A música que faziam era basicamente a mesma que Oi!, mas as bandas preferiam frisar a diferença com o Punk em geral empregando o termo R.A.C. (Rock Against Comunism = Rock Contra o Comunismo).

Criaram-se então, associações para espalhar e divulgar a autêntica imagem skinhead. Em 1988 nasceu S.H.A.R.P. (Skin Heads Against Racial Prejudice - Cabeças Raspadas Contra os Preconceitos Raciais) promovida por alguns grupos anti-racistas de skinheads norte-americanos. S.H.A.R.P. é uma organização apolítica com os únicos princípios de anti-racismo e antifascismo. A finais de 1993 como conseqüência de um incidente provocado por supostos membros da S.H.A.R.P., cria-se em Nova York o R.A.S.H. (Red & Anarchist Skin Heads) formada por skinheads anarquistas e comunistas, renunciando ao apoliticismo da S.H.A.R.P.

REDSKINS

O movimento redskin nasceu na França, por volta de 1984/1986. Havia, por um lado, uma situação econômica e política extremamente dura, caracterizada por um desemprego massivo, o princípio de políticas neoliberais e a instalação na França de um enorme movimento de extrema direita representado pela Frente Nacional (FN); por outro lado, o aparecimento de um movimento cultural: o alternativo (mistura de punk-rock em francês, de contestação política e de cruzamento de culturas).

Os primeiros redskins franceses não são de forma alguma parte do movimento Skinhead. Nessa época, quase todos os Skinheads da França são fascistas (Boneheads) ou apolíticos. Eles "quebravam" festivais punks, atacavam mendigos nas ruas, implicavam com imigrantes, roubavam putos no metrô, apareciam nas primeiras páginas dos jornais e nos telejornais, desfilavam em manifestações com bandeiras nazistas, etc. Por isso, ao redor dos "Bérurier Noir" cria-se uma espécie de serviço de segurança que se encarrega de proteger os festivais e de impedir os "fachos" de entrar. É o nascimento do primeiro "bando" importante de Redskins; os Red Warriors, e também dos primeiros "caçadores" de fachos parisienses.

Os Red Warriors (entre outros) encarregam-se de fazer mudar o medo de campo. Três anos depois, não existia mais ninguém (pelo menos em Paris) que aparecesse com bandeiras francesas, celtas ou suásticas nas ruas. Numerosos bandos foram formados como os "Lenine Killers", a "Red Action Skinhead" e, em Marselha, os "Massilia Red Army".

Já a cultura deste movimento é variada: ao nível musical, Oi!, punk-alternativo, reggae, mas também psychobilly ou mesmo hip-hop. Pode-se dizer que os Redskins são a "vanguarda" mais decidida no interior do "Alternativo" contra o fascismo e o racismo, tornando a música secundária. O único grupo a deter a unanimidade é, evidentemente, "The Redskins", o grupo de power-soul TROTSKISTA (militantes do SWP, Socialist Workers Party) britânico. Políticamente, na França, alguns são trotskistas de tendência OCI ou LCR, outros PCF, e mais numerosos os de sensibilidade autônoma ou libertária. A SCALP (Section Carrement Anti Le Pen), grupo libertário não-dogmático e ultra-ativista, contribuirá com o essencial para a militância dos Redskins da época.

Finalmente, ao nível do visual, os redskins cultivam uma mistura de elementos retirados dos Skins, Psychos, dos primeiros B-Boys, tudo acrescido de símbolos índios e do folclore proletário. É a partida de um movimento cultural aberto, que não procura diferenciar-se do resto do "underground" da época, mas que exprime um antifascismo visceral e enérgico, na rua e nos concertos.

Com o recuo da presença de fachos na rua, a razão de ser dos Redskins tornou-se quase caduca; o fascismo institucionaliza-se, tenta mostrar-se mais apresentável e em torno dos partidos. Em 1989 é também o fim de não poucas bandas da cena alternativa como "Nuclear Device", "Les Brigades", assim como "Kortatu" e "Bérurier Noir". Alguns Redskins abandonam o movimento e outros começam a (re)descobrir as verdadeiras raízes do movimento Skinhead: o reggae, o rocksteady, o ska, e a mistura cultural inglesa dos anos 60. É o regresso dos "Original Skins". Começa-se também a ouvir falar da S.H.A.R.P. Os Redskins mais ligados a essa cultura tornam-se então Red Skinheads, isto é, Skinheads autênticos (música, visual,...) mas sempre ligados aos valores da esquerda e da extrema-esquerda.

A partir de final dos anos 80, o movimento Redskin nos Estados Unidos, no Estado Espanhol, na Itália, na Alemanha, no México, na Colômbia, e em Québec, desenvolve-se. Nasce daí a R.A.S.H. (Red & Anarchist Skinheads). Ela dá um novo fôlego à cultura Redskin, populariza-a, estrutura-a de uma certa maneira, sem, no entanto, a estereotipar. As diferenças continuam a existir entre os diferentes movimentos nacionais, devido as suas respectivas histórias.

ESTES SÃO OS PONTOS DE UNIDADE DA RASH - INTERNACIONAL (TODAS AS SEÇÕES FILIADAS DEVEM ACEITAR ESTES PONTOS):

I. AUSÊNCIA DE SECTARISMO. Pode unir-se a RASH qualquer pessoa ou organização de esquerda radical que desejar, desde que não seja sectária e esteja disposta a trabalhar com outros grupos. Todas as tendências revolucionárias serão aceitas.

II. CONTRA O RACISMO, A HOMOFOBIA E O MACHISMO. Todos os seres humanos são iguais, e, como tais, dividir-nos com fronteiras e classificações artificiais como raça, sexualidade e gênero é um engano. Lutamos contra todas as formas de opressão.

III. ANTIFASCISMO. Sabemos que os fascista são as tropas de choque que o capitalismo utiliza para defender seus interesses quando a democracia burguesa está impossibilitada de os proteger. O fascismo usa como armas a xenofobia, o racismo, a homofobia e o machismo.

IV. ANTIPOLICIAL. Entendemos que a polícia é a força armada do sistema da propriedade privada e é portanto nossa inimiga de classe, além de ser responsável pela destruição das nossas cenas, prendendo nossos militantes e dando proteção a fascistas e burgueses. Odiamos a polícia e a cooperação com ela.

V. ANTIIMPERIALISMO. A opressão de uma nação por outra faz parte do sistema da exploração capitalista. Defendemos a autodeterminação dos povos e a independência das nações oprimidas.

VI. SOCIALISMO REVOLUCIONÁRIO. Queremos transformar a sociedade capitalista atual numa sociedade sem exploração e sem classes sociais. Um sistema que assegure aos trabalhadores o produto do seu trabalho, a sua liberdade, a sua independência e igualdade política e social.

VII. PODER OPERÁRIO. A libertação só será conquistada através da luta dos próprios trabalhadores pelo controle dos meios de produção, organizada independentemente. O capitalismo deve ser derrubado pela ação da classe operária.

A HISTÓRIA DA RASH DE FORTALEZA - CEARÁ

"EU NÃO ACREDITO NA ORDEM E PROGRESSO!" (GAROTOS PODRES)

A RASH de Fortaleza surgiu após um show da famosa banda de oi! Garotos Podres. Antes disso éramos apenas pessoas que curtiam oi!, punk, etc., que tinham cabeças raspadas e coturnos, que militavam ativamente no movimento sindical e estudantil, mas que eram apenas simpatizantes dos skins.

Uma das bandas que fizeram a abertura desse show foi uma banda formada por carecas nacionalistas. Eles começaram a cantar aquelas músicas ufanistas, exaltando a bandeira nacional com o ridículo lema de Ordem e Progresso. Nós decidimos protestar e defender o internacionalismo proletário: fomos para a frente do palco cantar a Internacional (símbolo da classe operária mundial). Um grupo de anarquistas (e logo depois boa parte do público) começou a vaiá-los também. A banda então começou a xingar os anarquistas e os socialistas.

Depois do show, decidimos não deixar que um bando fascista como aqueles sujassem o nome dos skins (já bem sujo devido a mídia burguesa). Passamos de simpatizantes à militantes ativos dos redskins e fundadores da RASH em Fortaleza.

SESSÕES DA RASH POR TODO O MUNDO:

(Se sua sessão da RASH não está aqui entre em contato com rashfor@bol.com.br)

http://www.rashfor.tk/ (Ceará - Fortaleza)
http://www.geocities.com/CapitolHill/Lobby/3475/ (United - Internacional)
http://usuarios.lycos.es/rashcanarias/ (Ilhas Canárias)
http://www.rapadosunidos.8m.com/ (Costa Rica)
http://www.geocities.com/skinhead_bta/ (Colômbia - Bogotá)
http://www.rashantofagasta.tk/ (Chile - Antofagasta)
http://es.geocities.com/rashunida/ (Portugal - Galiza)
http://www.nodo50.org/resistenciash/ (Espanha - Resitencia)
http://www.nodo50.org/rashmadrid/index.htm (Espanha - Madrid)
http://www.terra.es/personal/jce00000/rash.htm (Espanha - Alcobendas)
http://www.iespana.es/violent/ (Espanha - Astúrias)
http://come.to/skinheads (País Basco)
http://contre.propagande.org/ (França - Paris)
http://www.geocities.com/revolutiontimes/ (Alemanha - revolution times)
http://www.rashankara.org/ (Turquia - Ancara)
http://www.geocities.com/rashmexico/ (México)
http://www.rash.hostmos.ru/ (Rússia)

quinta-feira, 12 de março de 2015

Carlos Barrios/ABI
Votação em segundo turno acontece neste domingo; para presidente venezuelano, Lei Habilitante ajudará país a tomar ações "anti-imperialistas"



11/03/2015

Do OperaMundi

Um dia após o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pedir permissão ao Congresso para governar por decreto, a Assembleia Nacional do país aprovou na madrugada desta quarta-feira (11/03), em primeiro turno, a solicitação.

Segundo o mandatário, a chamada Lei Habitante permite que o governo tome ações “anti-imperialistas” para “defender a integridade, a paz, a soberania e a tranquilidade” do território.

A votação em segundo turno texto acontecerá no próximo domingo (15/03). Caso tenha respaldo com a nova medida, Maduro estará autorizado a fazer decretos nos próximos seis meses, sem precisar da autorização do Legislativo.

Trata-se de uma resposta do governo da Venezuela à decisão anunciada na terça (10/03) pelo presidente norte-americano, Barack Obama, que anunciou aumentar sanções e classificou o país como uma “ameaça à segurança nacional”.

"Obama decidiu cumprir pessoalmente a tarefa de derrubar meu governo e intervir na Venezuela", criticou Maduro ontem. "Tenho informação de primeira mão de outras pretensões do governo dos Estados Unidos e, como chefe de Estado e de governo, estou obrigado a aplicar a constituição em todas as suas partes", acrescentou, segundo informações da Deutsche Welle.

Ainda ontem, Cuba classificou a ordem de sanção norte-americana de “arbitrária e agressiva", oferecendo “apoio incondicional” ao governo venezuelano. O próprio ex-presidente cubano, Fidel Castro, escreveu uma carta destinada a Maduro, em que elogia o discurso “brilhante” e “valente” do venezuelano.

Fonte: Brasil de Fato

quarta-feira, 11 de março de 2015

Os Desordeiros da Ordem








Em seu célebre O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte, Marx analisa como o “Partido da Ordem”, coalizão de frações burguesas monarquistas, em seu conflito com o presidente Louis Bonaparte, promoveu, em nome da conservação da ordem, um clima de agitação que acabou fornecendo a Bonaparte o pretexto para desferir seu golpe de Estado.

Mais de um século e meio depois, em um palco e com personagens em tudo distintos, assistimos no Brasil de hoje à encenação de uma farsa análoga. As forças políticas e sociais conservadoras, os grandes interesses econômicos, as classes médias, a grande imprensa, o ministério público e o judiciário enfim, as classes, os aparelhos e as instituições tradicionalmente identificadas com a defesa da ordem promovem no país um clima de agitação e mesmo de caos como há muito não se via.


Porém, ao contrário da trama desvendada por Marx, o golpe, se vier, não será desferido pelo executivo federal, encabeçado pela sóbria e silenciosa Dilma Rousseff, mas pela coalizão dos desordeiros da ordem.


Deixando a analogia com a Europa do século XIX de lado e recorrendo a cenários mais próximos e contemporâneos, uma comparação entre a atual crise brasileira e a crise chilena do início dos anos 70 e com a atual vivida pela Venezuela ressaltam ainda melhor o absurdo e farsesco do que estamos a assistir. Se o governo de Salvador Allende, e os de Chavez e Maduro dão, em graus variados, bons motivos para os detentores do capital, do poder e do prestígio sociais amplos e bons motivos para temerem pela segurança de sua propriedade e de sua posição, nada remotamente semelhante pode ser dito a respeito dos governos do PT, muito menos do atual governo de Dilma Rousseff.

Em artigo escrito ao final do ano, o deputado federal Jean Willis (PSOL-RJ), imaginou o espanto de um politólogo extraterrestre diante do paradoxo de um governo desesperado em agradar os grandes interesses econômicos e os grupos mais conservadores e uma oposição que o acusa, aos brados, de “comunista”, “bolivariano”, “castrista”, e outras sandices do gênero.


Em setembro do ano passado, em meio ao clima eleitoral, um familiar indagou à outra parente se ela não via “um risco de venezuelanização” do Brasil com a continuidade de Dilma.


Na época, tratei a pergunta como pura alienação, que nem as drogas mais potentes do mercado seriam capazes de produzir. Porém, hoje, se a pergunta me fosse dirigida, eu responderia o seguinte: “sim, vivemos esse risco. Mas os responsáveis são vocês!”.

A responsável pela “venezuelaniização” de nosso conflito político não é nossa timorata mandatária, cujo “momento Brizola” foi exagerado, admito, pelo meu otimismo pré-eleitoral, não passando disso mesmo, um momento. Não, a responsabilidade recai única e exclusivamente nos ombros da oposição conservadora que ora brada e bate panelas nos bairros da elite, clamando pelo empeachment. Assistimos ao grotesco espetáculo daquela gente que se considera “culta”, “informada”, “responsável”, “ordeira", em suma, “gente de bem”, agir como uma horda de bárbaros, “boçais”, fascistas e ignorantes, que repelem aos gritos e aos pontapés, se preciso for, seus oponentes, aos urros de “petralhas”!, “bolivarianos”, “ladrões”!, “vão todos para Cuba, o SUS e o inferno”!, o que para eles dá no mesmo…


As massas trabalhadoras, dos quais essa mesma “gente de bem”, sempre esperou a barbárie, a violência e a subversão, as que outrora foram chamadas de “classes perigosas”, pelo contrário, se comportam como os autênticos cidadãos pacíficos.

Claro, não lhes faltam motivos para queixas e insatisfação com o atual governo que, embora negue, mexe em seus direitos e lhes joga nas costas o maior peso do arrocho hora em curso. Aliás, os próprios trabalhadores têm clara consciência disso -- não faltam nas periferias das grandes cidades, movimentos sociais como o MTST, para sair as ruas e reclamar os direitos que o Estado brasileiro continua a negar à essa população.

Porém, é óbvio que a maioria dos trabalhadores, ainda que insatisfeitos com o atual governo e com o PT, não embarcam na histeria golpista que tomou conta do andar de cima.

É verdade, alguém poderia me dizer, que o delírio moralista e reacionário dos setores médios, habilmente manipulados pelos prestidigitadores da mídia e do capital financeiro, não tem nada de novo no Brasil. Basta lembrar o pequeno e brilhante ensaio “O Moralismo e As Classes médias”, de Hélio Jaguaribe, que examina os fundamentos sociológicos e o sentido político da campanha que levou, em 1954, ao suicídio do presidente Vargas. Passado mais de meio século, porém, além da sociologia e da ciência política, creio que precisaríamos de outro instrumental analítico para compreender o que se passa: o da psicanálise.

Não por acaso, o psicanalista Christian Dunker, em intervenção recente, invocou seu campo disciplinar para compreender o fenômeno Bolsonaro e congêneres. Mas, mesmo os que não simpatizam com Freud ou Lacan, não podem deixar de reconhecer o traço doentio de manifestações como as do panelaço de hoje (domingo). O grande sociólogo brasileiro, Florestan Fernandes, tinha fortes razões para falar da “resistência patológica” das elites brasileiras a mudança, na qual o reformismo mais tímido é combatido como a ameaça da Revolução.


Diante do avanço aparentemente “irresistível” da direita neofascista, a esquerda se comporta como se estivesse hipnotizada, prostrada, confusa. Dividida e sem direção, como de costume, a esquerda parece não opor senão resistências individuais e desorganizadas a seus adversários, os quais se apresentam como um “exército” coeso. Contudo, retomando a imagem da farsa, toda essa coesão, ainda que tenha inegável realidade – basta pensar no papel crucial do Instituto Milenium e uma densa rede de “think-tanks” neoconservadores – também tem algo de aparente e de jogo de cena. Nós, os democratas e progressistas temos que sacudir a prostração, superar momentaneamente nossas divergências, e reagir à altura ao golpismo desavergonhado. Ninguém precisa ser governista ou petista para entender o que está em jogo nesse momento. Se alguém não acha que o conservador governo Dilma vale uma luta, as liberdades democráticas certamente valem.

E se esse mesmo alguém acha que a democracia não está em perigo, tudo não passando de delírio ou invenção do governismo, que ouça o ruído das panelas dos jardins e pense de novo. Vamos dar um basta à pseudo subversão do andar de cima! Digamos aos desordeiros da ordem a eterna frase da “passionária” Dolores Ibarruy: “no pasarán!”

Professor de Ciência Política da UNILA.

terça-feira, 10 de março de 2015


Conservadorismo quer fim da reeleição por causa de Lula




Nicolas Chernavsky*



Os movimentos políticos têm motivos visíveis e motivos ocultos. No caso da proposta de acabar com a reeleição no Brasil, os motivos visíveis podem ser vários, mas o grande motor da proposta é um motivo oculto quase impronunciável: impedir que Lula possa tentar a reeleição em 2022, no caso de ser eleito presidente do Brasil em 2018. Afinal, é disso que se trata a grande política: que maioria vai ser formada no comando do Estado? Uma maioria com a parte mais progressista do espectro político, ou com a parte mais conservadora do espectro político? Assim, as propostas, manobras, movimentos e alianças que vemos todos os dia na política brasileira acabam se referindo ao grande xadrez que vai determinar o grau de progresso com o qual o país vai avançar nos próximos anos e décadas.
Como se compõe esse xadrez? Quem somos nós nessa disputa? Quem são os dois conjuntos de peças que fazem parte dessa disputa? Somos ou de um conjunto ou de outro ou podemos ser dos dois? Como usar essa grande metáfora do milenar jogo de mesa para ajudar a entender as disputas políticas?
Em primeiro lugar, vamos substituir a dicotomia de “peças brancas e pretas”, que neste contexto podem adquirir uma conotação racista, pela de “peças progressistas e conservadoras”. Assim, este xadrez político têm estes dois conjuntos de peças. Isso não quer dizer que cada pessoa seja uma peça, que cada partido seja uma peça ou que cada entidade da sociedade seja uma peça; quer dizer apenas que as forças fundamentais que disputam a política são essas, o progressismo e o conservadorismo, e aqui vem o principal: um jogo de xadrez como este também é jogado dentro de cada pessoa, de cada partido e de cada entidade da sociedade. A resultante deste xadrez interno é o que vai determinar se a pessoa, partido ou entidade vai fazer parte das “peças progressistas” ou das “peças conservadoras” no xadrez geral. Se o jogo de xadrez interno muda, uma pessoa, partido ou entidade pode deixar de ser progressista e passar a ser conservador, e vice-versa.
Leia aqui todos os textos de Nicolas Chernavsky
Assim, quais são as principais peças do grande xadrez da política brasileira atual? A rainha – ou seja, a “peça conservadora” de maior importância depois do rei – é a farsa do “mensalão”, que permite a continuidade da cisão entre PT e PSOL e permite reforçar o tradicional argumento dirigido pelo conservadorismo a todas as forças progressistas do mundo: o argumento da moralidade. Liberdade e igualdade sexuais? “Imoralidade”. Liberdade e igualdade religiosas? “Imoralidade”. Liberdade e igualdade de liberdade de expressão? “Imoralidade”. Liberdade e igualdade econômicas? “Imoralidade”. Liberdade e igualdade de organização política? “Imoralidade”. Para defender essa “rainha conservadora” (o “mensalão”) há vários “bispos, cavalos e torres conservadoras”, como por exemplo a tentativa de estender por cinco anos os mandatos dos atuais ministros do STF, adiando a renovação desta corte e assim dificultando que na revisão criminal, condenações a petistas na AP 470 sejam revertidas.
E quem é o rei, a peça mais importante do conservadorismo no xadrez da política brasileira atual? É aquela entidade que embasa a opinião de corações e mentes: os meios de comunicação. Dentro desta peça, está sendo jogado um xadrez interno em que, por enquanto, estão vencendo as “peças conservadoras”. Mas nos últimos anos, novos ventos da Internet têm gerado uma mudança nesse jogo, e as “peças progressistas” estão ganhando cada vez mais terreno. O grande desafio do progressismo brasileiro é vencer o “rei conservador”, e neste xadrez, o da realidade, a forma de fazer isso é que dentro do “rei conservador”, o progressismo vença. Complexo? Bem-vindos ao xadrez da política. Ah, e quem ou o quê é o “rei progressista” no Brasil de hoje? Para saber a resposta, responda a essa pergunta: quem ou o quê o conservadorismo mais ataca hoje em dia no país?
*Nicolas Chernavsky é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP), editor do CulturaPolítica.info e colaborador do Pragmatismo Político